Tomokazu Komiya é um dos ilustradores mais antigos e prolíficos do Pokémon TCG, presente desde 1998, com mais de 300 cartas ao longo de quase três décadas. Seu estilo primitivista, com traços propositalmente deformados e cores soltas, é um dos mais divisivos de toda a história do jogo. Ou você ama. Ou você odeia. Mas dificilmente você passa por uma carta dele sem ter uma reação.
Tem uma carta do Ledyba. Neo Destiny, lá de 2001. O bichinho parece estar chorando.
Quando a carta saiu, alguém foi à internet reclamar: “Por que o Ledyba está chorando?! Não faz sentido!”
Tomokazu Komiya leu esse comentário. E ficou satisfeito.
Não porque ele queria irritar as pessoas. Mas porque a carta estava funcionando: ela estava fazendo alguém sentir alguma coisa. Qualquer coisa. E pra Komiya, essa sempre foi a questão central: uma ilustração que não provoca reação nenhuma é uma ilustração que falhou.
Eu penso muito nessa história quando pego uma carta dele na mão. Aquele traço estranho, aquela proporção levemente errada, aquelas cores que parecem ter saído de um caderno de criança dos anos 70. Primeiro estranhamento. Depois, algo que não para de me puxar de volta.

Quem é Tomokazu Komiya (e como ele foi parar no Pokémon TCG)

Komiya nasceu em 1973. Saiu do ensino médio, foi estudar design e ilustração no Instituto de Arte e Design Toyo, em Tóquio.
A história de como ele chegou ao Pokémon é quase acidental, e completamente dele. Enquanto ainda era estudante, um amigo o convidou pra vender postais num bazar. Uma compradora parou, olhou para o trabalho dele, e perguntou se era estudante ou profissional. Ela mesma era ilustradora, trabalhava numa revista feminina da Shogakukan, e o encorajou a mandar portfólio.
Dali veio o primeiro trabalho editorial. E de lá até o TCG, a trajetória foi natural: o Pokémon estava explodindo no Japão no fim dos anos 90, e Komiya estava no lugar certo com um estilo que, ironicamente, não era nada parecido com o que o jogo costumava publicar.
Sua primeira carta (um Weedle) saiu apenas no Japão, em 1998. No mercado internacional, estreou no Neo Genesis, em 2000. E desde então nunca parou.
Mais de 300 cartas. Mais de 150 sets diferentes. Ele é um dos poucos artistas que esteve presente em quase cada era do TCG, de Wizards of the Coast até Scarlet & Violet.
O que é primitivismo, e por que isso importa pra entender as cartas dele
Quando alguém diz que o traço do Komiya “parece feito por criança”, não está necessariamente sendo cruel. Está, sem saber, descrevendo o primitivismo.
Primitivismo é um movimento artístico real. Uma escolha estética consciente. Ele busca inspiração nas formas de arte de culturas tribais, da pré-história, da arte infantil, deliberadamente afastando a “perfeição técnica” que a arte acadêmica europeia estabeleceu como padrão. Pense em Paul Gauguin, Jean Dubuffet, Keith Haring. Artistas que abriram mão da anatomia precisa em troca de algo mais direto, mais visceral, mais honesto.
Komiya é um praticante declarado dessa corrente. Ele usa guache e tinta a óleo (mídias físicas, tradicionais) e exagera intencionalmente as feições dos Pokémon. Proporcionalidade errada? Sim. De propósito. Traço solto demais? Absolutamente intencional.
O próprio Komiya deixou isso claro numa entrevista para o concurso de ilustração do TCG: tentou por um tempo fazer o estilo clássico, aquele de representação mais fiel e técnica. Se avaliasse a si mesmo nessa tentativa, daria no máximo três de dez. Então voltou ao que sabia fazer. Ao que ninguém mais estava fazendo.
A pergunta que a comunidade deveria estar fazendo não é “por que as cartas dele parecem esquisitas”. É: o que ele está tentando dizer com esse esquisito?
As cartas que você precisa conhecer

Não dá pra falar de Komiya sem falar de cartas específicas. Então aqui vão algumas que mostram o alcance do estilo dele:
Ledyba, Neo Destiny, 2001
A carta do comentário do “chorando”. Expressão exagerada, cores saturadas, composição que parece um desenho de primário. É uma carta comum que ficou famosa por existir de forma tão inconformada. O Komiya sabe disso, e claramente não se arrepende.
Aipom, Majestic Dawn, 2008
Uma das favoritas de quem já coleciona por artista. O Aipom parece estar em movimento constante, mesmo parado na carta. Aquela sensação de energia caótica que Komiya consegue criar com linhas que deveriam ser “erradas”.
Haunter, múltiplos sets
Komiya ilustrou o Haunter mais de uma vez ao longo dos anos. É quase um teste: o mesmo Pokémon, o mesmo artista, décadas de diferença. Cada versão carrega o DNA inconfundível, mas você consegue ver como o traço foi evoluindo, mesmo se mantendo fiel à proposta primitivista.
Pikachu, várias coleções
Ele fez Pikachus. Claro que fez. E cada um deles parece de outro planeta em comparação com qualquer Pikachu técnico e “correto”. São esses que ficam na memória.
Sunflora e Smeargle, colaboração Pokémon x Van Gogh, 2023
Aqui é onde fica óbvio que Komiya não é um artista ingênuo: ele tem referência histórica séria. Para a colaboração com o Museu Van Gogh, ele assinou duas peças: um Sunflora inspirado em Girassóis e um Smeargle baseado no Autorretrato como Pintor. É primitivismo conversando com pós-impressionismo. Komiya dialogando com Van Gogh através do TCG. Se isso não é arte levada a sério dentro de um jogo de cartas, não sei o que é.

O que a maioria da comunidade pensa, e onde erra
Tem uma narrativa comum no TCG sobre as cartas do Komiya: “são as cartas feias”, “parece que uma criança desenhou”, “odeio pegar uma carta dele num booster”.
Entendo de onde vem. O padrão estético do TCG moderno está muito orientado para hiperdetalhamento, perspectivas elaboradas, pinturas digitais fotorrealistas. As cartas full art e illustration rare de hoje têm uma linguagem visual completamente diferente da do Komiya.
Mas confundir “diferente do padrão atual” com “ruim” é um erro que qualquer pessoa com um pouco de história da arte consegue identificar.
Komiya sabe desenhar. Sabe usar contraste, sabe criar profundidade de campo, sabe construir movimento com poucas linhas. Ele escolhe não demonstrar isso da forma convencional. Essa escolha (e é uma escolha, não uma limitação) é o que define um artista com identidade própria.
Colecionadores que percebem isso estão entre os mais apaixonados que conheço. Existe uma comunidade inteira de pessoas que colecionam por artista, e o Komiya é um dos nomes mais buscados. Não pela raridade das cartas. Pelo que as cartas comunicam.
Sobre os vídeos aqui do canal: no reels sobre dar valor às artes de cartas falei exatamente sobre isso, como a gente treina o olho pra ignorar cartas “comuns” antes mesmo de olhar pra elas. E no reels específico sobre o Komiya, entrei em mais detalhe sobre o porquê o estilo dele provoca esse desconforto inicial que, se você deixar, vira fascínio.
Perguntas que chegam bastante por aqui
Tomokazu Komiya ainda ilustra cartas para o Pokémon TCG?
Sim. Ele está ativo até a era Scarlet & Violet e tem cartas no TCG Pocket. É um dos artistas com maior continuidade de toda a história do jogo, presente desde 1998 sem interrupções significativas.
Por que as cartas do Komiya parecem deformadas? É intencional?
Totalmente intencional. Komiya é um praticante de primitivismo, um movimento artístico que busca inspiração na arte tribal, pré-histórica e infantil, deliberadamente se afastando da representação técnica clássica. Ele escolhe esse estilo. Tentou o estilo convencional por um tempo e voltou atrás.
Vale a pena colecionar cartas por artista no Pokémon TCG?
Boa pergunta. A resposta curta é: depende do que te move no hobby. Se você coleciona por significado e história, colecionar por artista é uma das formas mais ricas que existem. Você acompanha a evolução de um olhar específico ao longo de décadas. Com Komiya, você tem quase 30 anos de história para percorrer. Veja outros artigos sobre o TCG no blog.
Quais são as cartas mais icônicas do Tomokazu Komiya?
O Ledyba de Neo Destiny (2001) é provavelmente a mais conhecida dentro da comunidade por causa do comentário do “chorando”. Mas o Haunter em suas diversas versões, os Pikachus e especialmente as peças da colaboração Pokémon x Van Gogh (2023) são pontos de entrada incríveis para entender a amplitude do trabalho dele.
Tomokazu Komiya usa técnica digital ou tradicional?
Tradicional. Ele trabalha principalmente com guache e tinta a óleo. Esse uso de mídia física contribui diretamente para a textura e a “rugosidade” característica das suas ilustrações, algo que a pintura digital, por mais sofisticada que seja, não replica.
Tem algo que o Komiya disse que ficou na minha cabeça desde que li.
Quando perguntaram sobre os princípios que guiam o trabalho dele, ele falou que provavelmente, quando as crianças que hoje colecionam crescerem e olharem para as cartas com as quais jogaram, as dele vão cair na categoria de “aquelas estranhas”.
E disse isso sem nenhum arrependimento.
Porque estranha e esquecível não é a mesma coisa. E depois de quase 30 anos, mais de 300 cartas e uma colaboração com o legado de Van Gogh, acho que ficou claro de que lado da história o Komiya está.
A carta estranha que você nunca esquece. Esse é o trabalho dele.
Se quiser continuar explorando a arte e a história do Pokémon TCG, veja outros artigos no blog do Professor TCG.
Qual foi a primeira carta do Komiya que te chamou atenção? Me conta nos comentários, curiosidade genuína.